sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O sonho das almas (continuando algo que não se perdeu)

A pouca luz que penetrava o quarto vinha da lua que a esta época se defrontava à janela. Nas paredes já não se via a cor uniforme do dia da mudança, manchas úmidas se misturavam às formas disformes, lembretes, versos, números de telefone, bocas e sangue. No banheiro, a torneira pingava servindo de inspiração para outros sons que surgiam repentinamente.
No quarto, um colchão, lençóis, almofadas coloridas, um aparelho de som antigo e um tapete desbotado. Cinzeiros, livros, alguns LPs e muitos papéis espalhados terminavam de decorar o ambiente. Cheirava a cigarro barato, chá de hortelã e esmalte.
Ele, sentado no tapete, lia qualquer coisa em uma das folhas jogadas. Tinha um cigarro apagado à mão e um lápis em sua orelha. Ela, deitada de bruços no colchão, o olhou por um instante e sorriu, naquele momento veio aos seus olhos a imagem do dono da padaria onde comprava cigarros, ele insistia em chamá-la de Camélia, dizia que ela o fazia lembrar de sua prima falecida ainda na puberdade.
Estavam nus e exaustos, mas não era sexo, era o dia, a falta de ar condicionado, a ruas cheias de gente, os carros loucos a gritar, a vida lá fora.
Ele levantou-se de repente, acendeu o cigarro e a voz de Ian Curtis passou a ecoar “coração e alma”. Não que o silêncio o incomodasse, mas fazia o quarto crescer e isso o assustava. Ela continuava deitada, a luz da lua parecia conhecer o caminho de seus cabelos castanhos dourados e sua pele branca. Não ouvia a música, estava absorta em seu mundo, talvez brincasse de roda agora, ou esconde-esconde no labirinto de sua mente.
Desde que chegaram não se falaram, há algum tempo isso era comum, apenas trocavam alguns olhares. Era como se comunicassem por essas duas janelas. Tinham aprendido a se falar pelos olhos, sabiam exatamente como agirem, os pensamentos saíam pelos olhos de um ao encontro do outro. As palavras tinham se tornado desnecessárias entre os dois. As pessoas estranhavam, mas pouco se importavam com elas.
A lua que prometera brilhar por toda a noite deu lugar à chuva fresca. Os olhos de ambos já tinham se acostumado à escuridão e aquele corpo branco agora estava junto àquele corpo moreno que tanto contrastava todas as noites. Mais uma vez se olharam e eram como se dissessem “a gritaria acabou”.
Já não havia sons, já não havia luz naqueles olhos. Agora repousavam suas almas, unidas em outro mundo, em outro tempo. Os sonhos tomaram conta daquele espaço. Neste mundo era noite, escura, vermelha. As estrelas não tinham as mesmas formas e a Lua era apenas um risco no céu. Havia um silêncio bonito, aquele silêncio que se ouve o vento e os passos no chão. Caminhavam de mãos dadas e a única luz que podiam enxergar era a luz que saíam de seus pés como raios. O caminho limpo os levava para o centro daquele lugar. Não sabiam onde estavam, mas não estavam perdidos, andavam firmes, como se soubessem o que procuravam ou onde queriam chegar.
Havia uma tela imensa a sua frente. Ela parou e observava o movimento das coisas dentro da tela, havia uma claridade intensa lá dentro, desconfortante, os objetos flutuavam e algumas pessoas pulavam na ânsia de pegá-los, outras apenas andavam, sem vida. Tudo era claro e sem vida, mecânico.
Ele, disperso, olhava o céu e toda escuridão avermelhada, algo o convidava a buscar a escuridão e desvencilhando-se daquelas mãos passou a flutuar, voar e a brincar. Via pássaros luminosos e sentia o vento a cortar o rosto. Sorria.
Quando se olharam, se encontraram no alto. Não voavam apenas, dançavam e o céu ganhava nuances e desenhos a cada movimento daquelas almas. Feixes de luz brilhavam intensamente naquela noite escura avermelhada.
Ao se olharem novamente já era dia, o disco já não tocava e no chão, próximo à janela, gotas prateadas refletiam a luz do sol. Estava fresco e a gritaria recomeçara.

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